Dida- O ídolo do ídolo
Dida adentrou a redação da Rádio demonstrando cansaço. O jogo não estava fácil para ele. A saúde do craque, ídolo de infância de Zico e de uma nação de Rubro-Negros, dava sinais de vacilação. A expressão do rosto não revelava a mesma alegria dos 244 gols pelo Flamengo. Concentrado como se estivesse pronto para o jogo, Zico lia e relia o que havia rabiscado para a entrevista. Um ídolo entrevistando o seu ídolo. E nervoso, como se fosse o primeiro encontro. Os dois eram velhos conhecidos, mas Zico estava ali na posição de entrevistador e se preparando para a estréia da “Memória”. Era um jogo diferente para o Galinho!
Quando Zico e Dida se encontraram, pouca gente era capaz de reparar, mas duas peças fundamentais para a construção do clube mais popular do Brasil estavam juntas. Zico sorriu, e Dida, contente, buscava forças e lutava contra a debilidade pulmonar que tiraria sua vida sete meses depois. Ninguém na redação sabia, por pura ironia do destino coube a Zico fazer a última entrevista com Edvaldo Alves de Santa Rosa. Foram mais de 30 minutos de emoção e de história.
- Atenção! Podemos gravar? -, perguntou o operador da rádio diante de dois craques conversando animadamente dentro do apertado estúdio de gravação.
Zico e Dida fazem sinal afirmativo. O dedo indicador é a deixa do operador para que Zico começasse a falar. E foi assim que teve início a “Memória do Zico, Memória do Flamengo”. A partir de hoje estaremos trazendo na “Memória do Flamengo”, personalidades que marcaram a historia do clube. Um trabalho inédito de resgate no mais querido do Brasil. Momentos marcantes de presidentes, atletas, técnicos. Enfim, nomes que dignificaram a história do Mengão.
Hoje, estou com aquele que foi meu grande ídolo: Edvaldo Alves de Santa Rosa, mais conhecido como Dida. Antes de passar a palavra para ele, vou falar do porque dessa paixão não só minha, mas também da família Antunes pelo Dida. Isso aconteceu quando o Flamengo foi campeão em 1955. O Dida fez quatro gols naquela grande final contra o América e eu estava ali com praticamente dois anos. Meus pais diziam que a primeira palavra que falei logo depois de papai e mamãe foi Dida. A partir dali é lógico que Dida passou a ser o grande nome de nossa família.
Um prazer, uma honra e uma emoção poder estar falando, homenageando e resgatando aquele que foi um dos maiores goleadores do clube...
Eu gostaria que você começasse contando como foi sua chegada ao Flamengo.
DIDA: Antes de mais nada eu gostaria de dizer que é uma satisfação muito grande estar aqui. Estou à disposição para tudo o que for possível. Lembro muito bem de como cheguei no clube porque marcou muito a minha vida. Foi o Sr Álvaro Ramirez que conhecia o Dr. Gilberto Cardoso e ligou para ele pedindo que eu fizesse um teste. Naquela época era difícil, mas o prestígio dele fez com que eu fosse lá.
Você jogava no CSA de Alagoas...
É, o CSA, o “azul”. Tinha também o CRB, o encarnado, o vermelho. E a rivalidade era grande como Fla x Flu e Fla x Vas. Naquela época eu já era profissional. Com 15 anos jogava com a seleção alagoana, mas era só osso. Batiam em mim e eu quebrava em três pedaços, mas estava lá.
E já torcia para o Flamengo?
Olha, eu nasci... costumo dizer isso e as pessoas riem, mas é uma realidade. Quando a parteira bateu no meu bumbum eu gritei: Mengoooo!!!. Não tem jeito (risos).
E como foi fazer um teste no seu clube de coração?
Foi uma emoção muito grande. Não sei nem se posso dizer como eu fiquei feliz e como eu estava nervoso. Naquela época era dificílimo. Na minha chegada no Flamengo os jornais gastaram uma semana perguntando quem era Dida. Isso mexeu comigo. Foi difícil, mas depois entrei naquele ritmo rubro-negro, aquela família. A gente fica em casa e o resto é com Deus.
Conheço bem a história porque tive a oportunidade de ler o seu livro, muito bem escrito por sinal, contando sua trajetória desde Maceió. Lembra quem te recepcionou aqui?
Fadel Fadel era o vice-presidente. O técnico era o Fleitas Solich (o feiticeiro). Foi ele que me pegou um dia e falou: “você vai jogar amanhã`”. Naquela época era difícil a estréia. Quando o jogador desconhecido do público ia estrear, nos jornais era um escarcéu terrível. Não era como agora com a Tv, que as pessoas já conhecem os atletas que estão chegando. A estréia sempre mexia com a torcida.
Você é um dos maiores artilheiros da história do Flamengo. Foram 244 gols com a camisa rubro-negra?
Foi o que saiu nos jornais. Acredito, sem falsa modéstia, que tenha sido mais porque havia muita excursão para o norte e nordeste. E naquela época a gente chegava e dava de 10, 14. Não é como agora que os clubes estão parelhos. Mas se o jornal está dizendo...
E o gol mais bonito?
Olha, eu sempre citei o gol que me levou ao Flamengo. Foi pela seleção alagoana contra a seleção da Paraíba, pelo Campeonato Brasileiro de Seleções. Fiz dois gols e o terceiro com a ajuda de Deus. Foi da ponta direita, um chute enviesado. No Flamengo, foi o terceiro gol do tri em 1955i. Estava 2 a 0 e o América tinha um bom time. Fez o primeiro gol e começou a complicar. E eu fiz o terceiro de uma maneira... Deus participou. Um chute violento do bico da grande área com a perna esquerda.
Nesse jogo o Flamengo venceu por 4 a 1. Lembrando que no primeiro jogo, o Flamengo ganhou por 1 a 0 com gol de Evaristo. Depois o América ganhou por 5 a 1 e você ainda era artilheiro dos aspirantes.
Aí eu não jogava, estava na reserva.. Só que nessa época não havia reserva de trocar roupa. O futebol não tinha substituições e por isso não podia jogar.
Então no último jogo você foi escalado pelo ''Mago'' causando aquela surpresa. Foi jogar e decidir o campeonato, porque uma coisa que você sabia fazer era gol.
O ''Mago'' chegou à noite, sem falar nada durante o dia, e perguntou: “como você está?’’. Disse que estava bem e então disse “vai jogar amanhã”. Tudo bem, eu respondi. Dei sorte e fui...Não vou ser tão modesto e pensar que foi só isso, mas a gente é ajudado por umas coisas.
Nessa final que encantou os Rubro-Negros é que o nome Dida começou a ficar na história do cube. Muitos dizem que você marcou quatro gols, outros afirmam que foram três, pois o outro teria sido do Duca. Como foi essa história?
Olha, até hoje até eu tenho dúvida. Foi um chute do Duca, eu correndo de um lado para o outro na frente da área, a bola bateu na minha coxa e enganou o goleiro. Quer dizer, o Pompéia ia na bola, podia pegar ou não. Mas como a bola desviou na minha perna e entrou do outro lado, ficou a dúvida. Lógico que ele chutou, deveria ser dele. Mas houve desvio...
Então o gol foi seu. Dida, aconteceu um lance desses comigo. Num jogo Flamengo e Botafogo pelo Brasileiro, 0 a 0, aos cinco minutos do primeiro tempo. Uma bola que sobrou para o Adílio, ele disparou o chute, que ia para fora, mas bateu no meu bumbum e enganou o goleiro. O juiz botou na súmula que foi meu.
Bom, você disse que ela ia para fora. Mas a outra ia para o gol, bateu em mim mas o goleiro estava na jogada. É um pouco diferente, mas eu realmente não sei.
Falando ainda em gols. O Celso Garcia, um dos Rubro-Negros fanáticos, me contou que você foi um dos poucos jogadores na história que comemorou gol antes de tocar na bola e ela entrar. Me parece no jogo contra o Fluminense, que o Henrique chutou e o Castilho rebateu. Você veio correndo e antes de bater já estava comemorando. Não teve medo de furar, de perder o gol?
Foram duas, 3 ou 4 vezes assim. O gol vazio. Eu já entusiasmado vinha vibrando demais com a facilidade de encontrar o gol feito. Houve um caso que eu não comemorei antes, mas uma goleada sobre Olaria na Gávea, que eu embaixo da baliza chutei na trave. Quer dizer, eu vi alguém chegando, olhei e quando bati perdi. Como pode perder embaixo do gol?
Mudando de assunto. E os outros títulos que vieram depois?
Esse do América foi o tri. Mas tem um detalhe, antes já havia jogado algumas partidas no bi. Joguei contra o Vasco 2 a 1, Fluminense (0 a 0). Botafogo (1 a 0). Fui campeão também, joguei três vezes. Depois veio o Rio-SP, o Torneio Início, e só voltei a ganhar em 63.
Mas antes disso teve uma passagem inesquecível pela seleção, não é Dida?
Todas as vezes tinha uma infelicidade incrível na Seleção. Era convocado e depois cortado porque estava contundido. A primeira vez foi mesmo em 58, quando joguei contra a Áustria na Copa do Mundo da Suécia e depois saí. Na verdade, estava com uma contusão e fui na marra. Tinha uma lesão no tornozelo que doía, mas fui assim mesmo. Toda vez estava machucado, dessa vez não queria perder.
Você foi um dos maiores goleadores do futebol brasileiro e o único a colocar o maior de todos os tempos no banco. Pelé estava começando com 17 anos e ficou na reserva. Você participou do 3 a 0 contra a Áustria, depois saiu para a entrada do Vavá e posteriormente do Pelé.
Foi naquele 0 a 0 contra a Inglaterra que eu saí.
Contra o País de Gales entrou o Pelé com Vavá. O Brasil ganhou por 1 a 0 e o Pelé virou o Pelé. Mas nós Rubro-Negros nos orgulhamos bastante dos 4 representantes naquela seleção: o Joel, o Henrique, Moacir, o Zagallo e você.
Era o ataque do Flamengo. E na outra Copa, uma coisa interessante. No Chile em 1962, só Henrique foi.
Uma de suas características era a habilidade, além da velocidade e da maneira como você se colocava no campo. Baixo mas com presença na área, uma explosão.
Eu tenho 1,61m. Olha, essa questão de altura não é tão importante. Não é subir mais que os altos, citando o Belini por exemplo, o importante é chegar primeiro. Tinha velocidade para chegar primeiro e isso fazia a diferença.
Um dos primeiros jogos que assisti no Maracanã foi a decisão Flamengo e Corinthians do Rio-São Paulo em 1961, em que você fez um dos gols. E o primeiro gol num cruzamento do Joel.
E depois nós fomos campeões do Rio-São Paulo, a única vez que o Flamengo conquistou esse título. Foi um dos mais importantes para mim, porque fiz um dos gols.
Naquela época o Rio –São Paulo é o que representa o Brasileiro
Certo. Os outros estados não tinham tanta representação, Minas, Rio Grande do Sul. Enfim, o Brasil todo como acontece hoje.
Falamos de grandes momentos, gols, conquistas. Mas quais foram os seus momentos de maior dificuldade?
Olha, tive momento difíceis, contusões em jogos que isso não poderia acontecer. Cheguei até a me desesperar e pensei várias vezes em parar de jogar. Fui aconselhado e consegui me recuperar. Mas as contusões foram difíceis.
E o relacionamento com jogadores, como era? Você teve como companheiros Joel, Moacir, Henrique e Babá.
Tem muita história interessante. A história do Babá, por exemplo, foi parecida com a minha na chegada. Lembro que passei uma semana terrível quando cheguei e o encontrei na mesma situação. Na véspera do jogo, para diminuir a tensão em cima de mim, o Fleitas colocou o Babá. Quem é o Babá? Quem é o Dida? Todos falavam. Foi horrível. Graças a Deus o time ganhou por 2 a 1, um time que vinha vencendo há dois anos. Não marcamos gol mas deu tudo certo.
O Vasco tinha aquela defesa temida com Orlando e Belini.
Belini era alto, mas o Orlando é que era difícil de jogar. Agora, zagueiro difícil mesmo era o Zózimo, do Bangu. Colava em mim, tinha muita saúde, jogava sempre na bola e não dava pontapé. Era irmão do Calazans. Marcava demais. Acho que um bom atleta com boa condição física pode dificultar muito. Ele foi titular da Copa de 62.
Aprendi uma coisa com o Zizinho, que era técnico do América quando eu estava começando. Ele falava: “Menino, você está jogando no Flamengo, conheço muito bem. Tem dias que a bola não caminha legal, você quer dar um passe e a bola vai por baixo. Nesse dia, se você começar a lutar e a torcida sentir a sua entrega, vai cair no agrado dela pelo resto da vida’’.
Exatamente. A torcida vibrava muito com a luta, com o jogador que não foge. A torcida aplaudia. Se o time perdia, era difícil. Mas se tivesse empatando e todos estivessem lutando, eles aplaudiam e davam força.
Um momento delicado foi a sua saída do Flamengo para a Portuguesa. Inclusive pra mim, que era seu fã. Várias vezes fui ao Maracanã para ver você jogar na Potuguesa.
Houve um desentendimento na Gávea porque mudou o treinador. Veio o Flávio Costa e ele me barrou do time. Era titular há 10 anos! Não aceitei isso. Houve uma discussão e quase fomos para o tudo ou nada. Resultado disso é que eu me afastei do clube, parei. Mas a Portuguesa foi atrás do Henrique, contrataram ele, e me jogaram de contrapeso. Acabei sendo titular por dois anos.
Você sai e quando volta ao Flamengo em 80, já aparece trabalhando nas categorias de base do clube. Como foi executar essa nova função?
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Ao lado do Carlinhos, você revelou uma geração importante para o clube...
Como auxiliar dele, revelamos Djalminha, Marcelinho, Nélio, Paulo Nunes, Marquinhos, campeões da Taça São Paulo, e em 1992, com o Junior, foram campeões brasileiros. Realmente não sei o que houve com esses jogadores que foram embora e acabaram estourando fora do Flamengo.
O que representa para você hoje a sua passagem pelo Flamengo?
É m sentimento que só quem está vivendo pode dizer. Sentimento forte mesmo. Fazer um gol decisivo num jogo pelo Flamengo, sentir a vibração da massa, o estádio todo vibrando. Isso deixa você louco. Não há uma frase ou palavra capaz de definir.
Retirado do site http://www.ziconarede.com.br/